top of page

A clínica, o território e o social: uma leitura de psicologia das massas

  • Foto do escritor: Leandro Galhardo
    Leandro Galhardo
  • 15 de mai. de 2025
  • 15 min de leitura

O convite para retomar o texto freudiano “Psicologia das massas e análise do eu, de 1920, parece-me uma oportunidade para tratarmos de questões atuais e condizentes com o título do nosso encontro: “Invenções subjetivas no século XXI”. Escolhi compartilhar com vocês um texto que foi me surgindo aos poucos. Assumi o risco de produzir certa monotonia, como é de praxe em algumas leituras, visando preservar os elementos que considerei essenciais. Pois bem, ocorreu-me dividir a exposição em dois momentos. No primeiro, resgatar os principais elementos extraídos da contribuição de Freud para, no segundo, dar os meus pitacos.

Encontramos já nas primeiras frases de “psicologia das massas” algo que se tornou mais ou menos clichê no meio psicanalítico: a ideia que a psicologia social e a psicologia individual não são necessariamente opostas, excludentes ou contraditórias. Elas são, na verdade, como lembra Freud, complementares, conectadas, entrelaçadas, embora existam questões particulares a cada uma delas. Um grupo não é, por exemplo, mera soma dos seus integrantes. Os componentes do grupo também não fazem dele, necessariamente, extensões de suas subjetividades. Há, então, os sujeitos, os grupos, os grupos de sujeitos e sujeitos em grupo e cada um deles pode ser lido por diferentes perspectivas. Partindo das construções de Gustave Le Bon, Mcdougall e outros pensadores, Freud aponta que o grupo é “provisório e formado por elementos heterogêneos que por um momento se combinam”. Ele defende, como sempre fez, a importância do inconsciente na vida humana e pouco a pouco vai tecendo as principais questões relacionadas às massas e aos indivíduos — cabe inclusive sinalizar que é exatamente por indivíduos que Freud chama as pessoas/sujeitos neste texto. Todavia, isso é discussão à parte. Freud aborda assuntos como a repressão, inteligência, “contágio” (acrescentamos sintomático, é claro) e a contradição entre os comportamentos do indivíduo isolado e em grupo. Ele retoma a temática da sugestão e da hipnose, lembrando-nos que ele a abandonou (a hipnose) há quase 30 anos. Tudo isso pode ser encontrado de forma bastante clara na letra do texto e, por isso, não deve tomar muito do nosso tempo.  

Um século após a escrita de “psicologia das massas e análise do eu” verificamos mudanças substanciais na sociedade. Algumas observações de Freud ganham serventia à medida que as ajustamos aos novos contextos. Outras, dada sua genialidade permanecem praticamente intactas. É o caso, por exemplo, de duas pequenas passagens que resgato literalmente: 1) “os grupos nunca ansiavam pela verdade. Exigem ilusões e não podem passar sem elas” e 2) “aquilo por que os neuróticos se guiam não é a realidade objetiva comum, mas a realidade psicológica”. Guardemos essa duas citações. Elas serão retomadas a seguir. O avançar da leitura escancara a dupla “funcionalidade do grupo” no sentido de produzir tanto um rebaixamento intelectual e perda da crítica dos indivíduos (face negativa) quanto a produção de manifestações culturais e produções intelectuais importantíssimas, como o carnaval, o folclore e a arte (face positiva). Um autor, ou melhor, um sujeito, preserva aquilo que tomou emprestado do coletivo, do seu contexto, dos seus laços. Um sujeito, como sabemos, não acontece à revelia do seu momento sócio-histórico e das outras experiências que atravessa. Freud retoma muitas hipóteses sobre os grupos. Interessa-nos neste momento apenas resumir algumas delas. O caráter clínico do texto: Freud discorre sobre a libido, tangencia definições de ódio e amor,  e, claro, fala daquilo que pode produzir coesão e fragilidade nos grupos. Lembra que os laços libidinais caracterizam um grupo. Exemplifica recorrendo ao Exército e a Igreja e insere no texto um entrelaçamento contundente entre a clínica e o social. Recorda que o “amor por si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelos outros, o amor por objetos” e que ele, o amor, “atua como fator civilizador, no sentido de ocasionar a modificação do egoísmo em altruísmo”. Em outras palavras, ele faz laço e trata daquilo que, como bem demonstrou Lacan, é constitutivo. O que tomamos por constitutivo? Refiro-me, é claro, a agressividade sabidamente emergente no estádio do espelho e que pode, ou não, transformar-se em violência. Agressividade e violência não são, portanto, sinônimos embora possam convergir e confundir-se.   

Esse é o texto recorrentemente reconhecido por tratar do fenômeno da identificação que, como diz Freud, é “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa”. À época ele alertou exaustivamente sobre a identificação a um líder e aos objetos (que podem ou não ser aqueles de consumo, ou mesmo uma ideia). Discorre sobre os grupos e suas funções preservando sem abrir mão da clínica. Discorre sobre os adoecimentos: melancolia, depressão e mania, por exemplo. Fala da importância do ideal do eu nos processos identificatórios e de grupo. Dedica-se também à discussão sobre a horda primeva, explicando-nos os principais fundamentos da exceção, do parricídio e, consequentemente do desmantelamento e retomada da coesão de um grupo. Localizam-se aí aspectos vinculados ao totem e ao mito. Até aqui, como vocês devem ter observado, em nada ultrapassamos o texto. Acontece que esse preâmbulo pareceu-me importante para destacar que “Psicologia das massas e análise do eu” pode ser tomado como propulsor clínico, ético e político e isso é preciosíssimo ao Freud nas Quebradas, que também é um grupo, um coletivo comprometido com a democratização radical da clínica psicanalítica. 

Na defesa dessa hipótese resgato algumas passagens do texto. Cito: 

  1. “a justiça social significa que nos negamos muitas coisas a fim de que os outros tenham de passar sem elas, também, ou, o que dá no mesmo, possam pedi-las. 

  2. “o sentimento social, assim se baseia na inversão daquilo que a princípio constitui um sentimento hostil em uma ligação da tonalidade positiva, da natureza de uma identificação”. 

  3. “cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos, acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal do ego segundo os modelos mais variados. Cada indivíduo, portanto, partilha de numerosas mentes grupais — as de sua raça, classe, credo, nacionalidade etc. 

Pois bem, o encontro com este texto freudiano ocorre numa sequência propositalmente lógica. Num primeiro encontro Gilson Iannini acertadamente tratou da moral sexual amplificando o debate a partir dos “red pill” e das inúmeras problemáticas que emolduram as violências e escancaram uma vez mais a fragilidade do masculino. Na sequência, Vinicius Lima retoma totem e tabu e traça importantes paralelos com a atualidade a partir da ideia de virilidade e das transformações dos tempos onde as imagos, significantes mestres e a orientação da subjetividade é permeada pela multiplicidade de elementos e possibilidades. Dani Viola, ao ler “caminhos da terapia analítica” , reposiciona a prática clínica num momento onde ocorrem diversas barbáries (guerras, por exemplo). Lembra-nos da importância do coletivo e do contexto no qual Freud produziu o texto. Está pronto, portanto, o terreno para ultrapassarmos a escrita do texto 1920. 

Tomo a liberdade de resumir os trechos citados nos significantes clínica, social e coletivo. Acho que podemos avançar desta maneira.  O que Lacan fez foi retornar a Freud fazendo avançar a teoria psicanalítica. Extraímos dos significantes escolhidos (clínica, social e coletivo), como propõe Fernanda Otoni, Célio Garcia e Andrea Guerra que viver junto (e o texto tem mais ou menos esse nome) não é óbvio. Dizem as autoras: “Entre um e outro é evidente que é aí, nessa zona nebulosa, que os conflitos ditos de natureza humana se apresentam. Para dar solução a esta evidência, a civilização tem recorrido a orientações simbólicas para regular o irregulável da convivência entre os homens”. Aos coletivos, grupos, por exemplo.  

A vida acontece, então, no laço social, no encontro e no desencontro. No exército, na Igreja, na rua, na família e nos momentos de isolamento onde muitas vezes acabamos por tentar tratar daquilo que também veio do outro e que de alguma forma também é nosso. Fulano me tratou mal, ciclano não teve bom senso, tomei um golpe que me custou x reais, o ônibus não passou, bateram no meu carro.  Como reza a cartilha da psicanálise, a vida acontece no encontro com diferente. Ocorre que em Freud, pela própria inclinação do texto e do contexto em que ele viveu, o grupo ganhou, como percebemos no texto, certo contorno negativo. Nada mais justificável. Ainda hoje vemos os incontáveis problemas decorrentes das formações de grupos orientados por ideias e ideais radicais. A polarização política, a guerra armada, os conflitos de suposta natureza religiosa. Por outro lado, como disse, há o carnaval, o folclore, bons frutos da ciência etc. O que nos interessa nisso tudo, por hora, como pretendo demonstrar é, como sinaliza a psicanálise, que algo não é essencialmente bom ou ruim. A questão é sempre relacional. Cada sujeito é único. Cada grupo é um grupo. 

Ciente de certa inseparabilidade do social do individual Miller afirma que a “realidade psíquica é a realidade social” (p. 2) na medida em que “no fundamento da

realidade social, há a linguagem” (p. 2) como uma “estrutura que emerge da língua que se fala sob o efeito da rotina do laço social” (p. 2). Destacam-se, então, dois elementos: a linguagem e o laço social. Dizer que a realidade psíquica é a realidade social não equivale a dizer que o sujeito é totalmente determinado pelo ambiente (ou pelo grupo, se quisermos) que o circunda. O que está em tela é que o campo social repercute no modo como o sujeito se representa e, por conseguinte, estabelece os seus vínculos. Torna-se necessário, então, distinguir o campo social do campo clínico. Isso significa que cada sujeito buscará alternativas para existir segundo o seu aparato subjetivo e de acordo com os recursos externos que consegue alcançar. Pela via da psicanálise apostamos na existência do sujeito com as suas invenções singulares ainda que o seu contexto seja marcado, por exemplo, pela exclusão, segregação, pobreza e pelas violências. O campo social pode ainda ser tomado de outro ângulo. O estudo dos “fenômenos sociais” (e essa é uma categoria de análise, uma chave para a leitura do mundo, análise da realidade).

O humano conforma-se pelas relações que estabelece com os outros através da linguagem. Lacan logo percebeu a necessidade de estabelecer bons trânsitos entre o singular e o coletivo. Exatamente por isso ele forjou a teoria dos discursos para suspender “do ponto de vista topológico”, a “divisão entre o singular do sujeito versus o social ou o político” e, por conseguinte, diluir a “divisão entre a psicanálise em intenção e psicanálise em extensão” (Souza, 2008, p. 113). Ele (1969-1970/1992) entrelaça a clínica ao campo coletivo por meio do conceito de laço social. O que ele faz, como recorda Coelho (2006), é “articular os campos da linguagem e do gozo, o sujeito e o saber inconsciente” (p. 107), inaugurando uma forma nova de pensar os vínculos e as estruturas clínicas. Na teoria lacaniana, o laço social pode ser tomado como uma maneira de acessar o coletivo sem renunciar aos fundamentos da clínica psicanalítica. Com isso, a psicanálise mantém o inconsciente em destaque, diferenciando-se dos outros campos do saber, como a sociologia e a antropologia. O sujeito do inconsciente, derivado de um enlace discursivo reproduzido sob transferência, conduz Lacan a propor o discurso como um modo “de uso da linguagem como vínculo social, pois é na estrutura significante que o discurso se funda” (Coelho, 2006, p. 108).

Parece que a provocação da Dani Viola vai nesse sentido. Ou seja, entre o sujeito e coletivo, o que é inevitável de ver? Ao dialogar com o texto da Cláudia Moreira interroga: para o que o nosso coletivo está olhando? O que não podemos deixar de ver. Ou melhor, o que, depois do encontro não conseguimos ou podemos “desver”? Cada um, a seu modo, vê algo. Interessa-se por isso ou aquilo e por seus próprios motivos permanece no Freud nas Quebradas. Num dos nossos encontros Cláudia Moreira sinalizou o seu interesse pelas saídas coletivas, ou seja, pelas formas encontradas pelas pessoas para lidar com os seus impasses; pela maneira como coletivamente os sujeitos driblam as adversidades, estabelecem laços de solidariedade e fazem da vida uma tarefa menos impossível. Nesse sentido, vemos uma faceta muito interessante e que dialoga com o texto proposto. Os grupos podem operar como produtores de violências, mas também como possibilidade de acolhimento, pertencimento e enfrentamento às dificuldades. Nas situações de adversidade, principalmente de precarização da vida e segregação, o coletivo, o grupo, pode tornar-se um aliado. Ele forja e insiste na produção do laço social — não nos cabe, como analistas, julgar a sua qualidade ou lhe impor critérios morais (aqui eu me refiro às formas de laço social). É o que percebi durante o trabalho com as pessoas em situação de rua, com profissionais do sexo, adolescentes em conflito com a lei. O mesmo ocorreu durante a pesquisa que desembocou na dissertação de mestrado “território e laço social: sujeitos e quebradas”. O laço social é fundamental, orientador, modulador dos gozos em muitas situações. O laço social e o grupo podem, sob determinadas circunstâncias, produzir vida. 

O que mais é inevitável de ver? Ora, como alertou Freud, a incidência do grupo no indivíduo; em outras palavras, a incidência do encontro e da contingência. O Freud nas Quebradas emerge justamente no período da pandemia, momento que descortinou o que muitos insistem em não ver: a existência de uma opressão de classe, raça, sexo, territorial etc. Um amontoado de opressões, discriminações, segregações que recai principalmente sobre as populações mantiveram a cidade em funcionamento. Os entregadores, motoristas, predadores dos serviços básicos sem nenhuma coincidência, pelo próprio caráter de muitos destes postos de trabalho, pertencem aos mesmos “grupos” que fundaram as periferias, ou seja, negros, migrantes nordestinos, brancos pobres e indígenas (D’Andrea, 2020). 

Nenhuma expressão social e cultural está desconectada das condições econômicas. As conjunturas de vidas expressam-se nas palavras empregadas pelos sujeitos, nas construções discursivas, nas formas de circular na cidade, nas possibilidades de viver, na escolaridade, na moradia. O inevitável de ver é, então, a incidência da classe social, da raça, do sexo, do gênero e de outros fatores na vida e, por consequência, no inconsciente. É inevitável que a psicanálise continue tomando nota disso. Inevitável que as e os analistas considerem estes atravessamentos. Não se trata de fazer apologia ou produzir um novo tipo de psicanálise. Nada mais cafona que ficar reinventando a roda. Trata-se, na verdade, de fazer valer os princípios éticos já conhecidos e de seguir escutando o sofrimento com as suas múltiplas facetas. 

O que mais é inevitável de ver? Ora, para o nosso coletivo, o território. Na verdade, um recorte do território: as quebradas! (e precisamos sempre dizer que as quebradas portam muitos coletivos, grupo, pequenas e grandes massas). O que é uma quebrada? Bom, segundo D’andrea, coordenador do Centro de Estudos Periféricos, partimos antes da definição de periferia que é o conjunto de várias quebradas. Então, uma quebrada é parcela, uma fatia da periferia. A periferia, por sua vez, pode ser definida principalmente pelos seus aspectos estruturais, a saber: pior infraestrutura urbana em relação a outros espaços da cidade, menor investimento e atenção social pelo poder público (Jesus et al., 2021) e tempo de deslocamento para se chegar aos centros urbanos (D’Andrea, 2020). Pensamos com D’Andrea (2020) que a “história da periferia é a história da sua luta contra a invisibilidade” (p. 10) e que o desinteresse do Estado por esses locais “fez com que os equipamentos e serviços públicos chegassem na periferia com décadas de atraso em relação ao centro e à região de habitação das elites” (p. 10). Recentemente, o IBGE colocou em desuso termos como área de interesse especial, aglomerados subnormais e outros substantivos que se referem às áreas marginalizadas, retomando, então, as nomenclaturas de favelas e comunidades urbanas. 

No Brasil, são aproximadamente 13 mil áreas periféricas/irregulares (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2019). Esses espaços figuram ora como objeto de desejo por suas valorações monetárias, ora como depositários daquilo que não cabe ou não encontra lugar em outros sítios. Aprendemos com Milton Santos que o território é uma questão particular composta por dimensões físicas e simbólicas. O território é, então, aquilo que subsidia a vida e que, por suas condições estruturais e políticas, muitas vezes forja grupos. O território abriga a periferia. O termo periferia, por sinal, surgiu primeiramente na academia. Trata-se de um conceito dos anos 1970, gestado de “fora para dentro e com sérias reticências para seu uso para moradoras e moradores de bairros populares” (D’Andrea, 2022, p. 79). A periferia enquanto elemento espacial constitui-se no seio do modo de produção capitalista. A “conformação das periferias” é resultado “de um processo de “urbanização acelerada e de industrialização concentrada na Região Sudeste que redundou em um desenvolvimento econômico e político” (Jesus et al., 2021. p. 266). As periferias são, entre outras coisas, expressões de uma lógica do capitalismo na qual a terra é entendida como capital, e a especulação constitui o formato próprio de extração de renda da terra (D’Andrea, 2022). Tal modo de operação foi bem localizado numa das viradas teóricas do marxismo, que reconheceu a cidade não como “palco” da “reprodução do capital e da força de trabalho, mas como uma “forma específica de produção do capital”. Poderíamos, é claro, discutir aqui toda a problemática das habitações, mas vamos acelerar em direção a algo que dialoga com o texto e que nos interessa nas quebradas. Encontramos lá um traço importante e pedagógico: a convivência com o diferente e o modo particular de fazer vínculo, de formar coletivos, de existir e resistir. Moram lá


[...] o pastor, a funcionária pública, o policial, o boy da quebrada, a dona de casa, o jovem funkeiro, o motorista de uber, a vendedora de loja, o traficante e a moça feminista. Nessa mescla ainda se sobrepõem diferenças clubísticas e/ou político-ideológicas, dentre outras. Moradores das periferias aprenderam que não podem sair brigando com o vizinho por ele votar na extrema direita ou na extrema esquerda (D’Andrea, 2020, p. 56).

O coletivo conforma-se às possibilidades. O grupo de moradoras e moradores da periferia vai encontrando formas que muitas vezes driblam os narcisismo das pequenas diferenças. Formam-se grupos de mães, a galera do rap, o futebol dos “cria”. A boca, ou seja, o ponto de comercialização de substâncias ilícitas também vai formando o seu time e organiza o baile. O tráfico de drogas, ou melhor, os traficantes, ditam uma parte da dinâmica de funcionamento do lugar. O de produção capitalista segue produzindo, entre outras coisas, violências. Com isso, surgem incontáveis problemas. A palavra muitas vezes perde espaço e emerge o ato. A exploração do trabalho infantil anda a passos largos. 

Divago para reafirmar a multiplicidade de grupos e para lembrar que cada um deles, cada contexto, cada sujeito, exigiria estudo específico. Ocupa-se disso, a clínica e a análise dos fenômenos sociais. Por enquanto, cabe apenas retomar que as lutas no campo social são coletivas. A massa de proletários. O conjunto de motoboys, a torcida organizada. Como discutiram Gilson e Aruã nos encontros anteriores: é preciso ter clareza da necessidade de golpearmos juntos mesmo quando marchamos separados. Na psicanálise não há de ser diferente. 

Retomando a questão das quebradas: bom, quebrada não é propriamente um conceito, por isso foi trabalhada na nossa pesquisa a partir da ideia de lugar, de território, de espaço e de periferia. Quebrada é um termo geralmente empregado pelos adolescentes e jovens adultos que vivem nas áreas de vulnerabilidade social (podemos defini-la depois). Como ouvimos nas ruas enquanto técnico de saúde, "quebradas" é uma possível nomeação eleita para informar as coordenadas geoespaciais e determinados modos de funcionamento e identificações (alô, Freud). Durante os atendimentos realizados nas cenas da cidade frequentemente escutávamos: “não zé, eu sou lá da quebrada tal”; “cê fraga minha quebrada, lá né assim não, lá é diferente”. “Quebrada” sinaliza então um certo modo de enlace entre as vivências e posições subjetivas, a geografia e os desdobramentos do modo de produção capitalista. As quebradas delineiam um modo de relação particular. Como resgatou Dani Viola no nosso último encontro, elas correspondem à fissura da homogeneidade da paisagem pretendida pelo ideário médio burguês. Uma quebrada pode avizinhar-se de um bairro luxuoso e isso em nada lhe garante, por exemplo, a assistência dos serviços básicos de saúde, assistência social e saneamento básico; a proximidade com centros comerciais também não assegura oportunidades de empregos aos seus moradores. Há, então, um grupo que apesar de dentro está fora. Dentro da cidade, fora da rota do transporte público. Próximo ao centro comercial, fora das oportunidades de trabalho. Dentro dos limites da avenida contorno, mas fora do circuito badalado da cidade.

À época da pandemia, o dentro e o fora, o abismo estabelecido entre as diferentes classes econômicas constitui-se mais uma vez como inevitável de ver. Formou-se nesse contexto um grupo cujo desejo de coletivizar algo relacionado à psicanálise pouco a pouco ganhou forma. No conforto e na segurança possível cada um de nós, com os recursos que possuíamos, atravessou como pode o período que deixou incontáveis óbitos. Alguns seguiram sua rotina de atendimentos no formato online, outros se isolaram nas cidades interioranas ou nas suas casas e apartamentos. Eu segui o meu cotidiano como residente de um dos hospitais da capital e acessei antecipadamente (em comparação ao restante da população as vacinas de imunização para o Coronavírus). 

Os moradores das periferias, das quebradas, por outro lado, foram durante criticados por supostamente não cumprirem o isolamento. Aqueles que podiam ficar em casa queixavam-se dos demais sem considerar que talvez a periferia não ficou em casa, como recorda D’andrea, simplesmente por não ter essa opção, já que, aos mais pobres, a resolução das questões da sobrevivência passa quase sempre por estar nas ruas ativando redes de vizinhança, redes familiares e redes de solidariedade mais extensas. Sobreviver passa por acessar os grupos e por fomentar o laço social. 


[...] em favelas e periferias não existe o trabalhador que faz a entrega do supermercado em casa. Não tem o interfone que toca. Não tem porteiro. Muitas vezes não tem carro. Pra resolver qualquer questão, há a necessidade de se sair de casa a pé (D’Andrea, 2020, p. 48-49).


Tempos depois, resgatando, como foi dito, certa tradição das clínicas públicas e as orientações freudianas, esse grupo de analistas de Belo Horizonte — e não somos pioneiros, pois existem muitos outros que nos antecederam — decidiu aprender com as quebradas e ir às ruas em busca das invenções subjetivas, dos saberes territoriais e das manifestações singulares. Decidiu-se escutar na áreas onde trabalham as profissionais do sexo, nas quebradas, no centro de saúde, nas ruas. Escutar onde for possível. Embora o setting seja importante, ele não é, necessariamente, o que forja uma análise. Os analistas trabalhadores do SUS sabem muito bem disso. O que a constitui é, na verdade, a presença do sujeito disposto a falar e de outro apto e desejante em ouvir. Um que sustenta o desejo de analista ao passo que o outro, ou o coletivo, tem a coragem de falar daquilo que dói. Obrigado. 


Coelho, C. M. S. (2006). Psicanálise e laço social: uma leitura do Seminário 17. Mental, 4(6), 107-121. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1679 44272006000100009&script=sci_abstract


D’Andrea, T. P. (2020). 40 ideias sobre periferia. 

Dandara.


D’Andrea, T. P. (2022). A formação das sujeitas e dos sujeitos periféricos. Cultura e política na periferia de São Paulo. Dandara.


Freud, S. (1921). Psicologia das massas e análise do ego. Imago.


Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Aglomerados subnormais 2019: Classificação preliminar e informações de saúde para o enfrentamento à COVID-19. Notas técnicas.


Miller, J.-A. (2008a). Coisas de fineza em psicanálise. Documentos de trabalho para os seminários de leitura da Escola Brasileira de Psicanálise. Lições I a IV. (V. A. Ribeiro Trad.). Orientação Lacaniana III, 11. https://psiligapsicanalise.files.wordpress.com/2014/09/jacques-alain-miller-coisas-de fineza-em-psicanc3a1lise.pdf


Souza, A. (2008). Os discursos na psicanálise. Cia de Freud.


Souza, M. A. A. (2005). Apresentação. OSAL: Observatorio Social de América Latina 6(16), 251-261. https://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/osal/osal16/D16Santos.pdf .


 
 
bottom of page