Solidão e território: a cabeça pensa onde os pés pisam
- Leandro Galhardo
- 23 de jan. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 15 de mai. de 2025
Logo que recebi o convite da Casa Aberta lembrei-me da consideração de Frei Betto que intitula minha contribuição. “A cabeça pensa onde os pés pisam”. Ocorreu-me também inverter as palavras do título proposto pelas analistas da casa. De solidão e território vamos para território e solidão. Pareceu-me menos difícil abordar a temática dessa forma. Proponho caminharmos inicialmente no sentido do território geográfico, econômico, cultura, histórico e multiforme e, depois, arriscar alguns palpites sobre a solidão — que acredito compor outra espécie de território — ou de terreno. A saber: o território subjetivo.

Podemos extrair, desde as contribuições de Milton Santos, Deleuze e Gattarri algumas considerações. Para o primeiro (Milton Santos), território e espaço ganharam diferentes contornos. Ele considera que o território é 1) é delimitado, mas mutável, diversificável e passível de transformações; 2) é construído e desconstruído por relações de poder; 3) os sujeitos territorializam suas ações e 4) acolhem os vetores da globalização instalando uma ordem e, ao mesmo tempo, produzem uma contraordem que gera marginalizados. Milton Santos aposta no território enquanto conceito necessário ao entendimento de mundo, de modo que o espaço geográfico é tomado como instância social, cultural, política e econômica marcado por regras que são formuladas e reformuladas localmente. Já os franceses (Deleuze e Gattarri) pensam o território como uma espécie de construção provisória que ocorre segundo os processos de territorialização e desterritorialização. Para eles, o território é concebido como movimentos que pressupõe linhas de fugas. Só existe território se for possível dele escapar.
As ideias expostas até aqui parecem dialogar com a formulação de Frei Betto: a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Podemos, então, nos desfazer daquela velha falácia que prega a separação radical entre o sujeito e o meio, pesquisador/pesquisa, sujeito/objeto. É nesse sentido que os sujeitos territorializam as suas ações e que os territórios forjam, produzem e conformam os sujeitos. Podemos inferir que tanto a ideia de sujeito quanto a de território comportam possibilidades de transformações, reorganizações e construções. Há em ambos o pressuposto do movimento da mutabilidade e da inventividade.
Exemplifico: Não fosse o desafio e a necessidade de atravessar o rio, aliás os córregos e esgotos à céu aberto, como no caso da realidade brasileira, não haveria a invenção de pontes forjadas com materiais improvisados pelos moradores locais. O que está em tela é a necessidade de transformação, adaptação e, em muitos casos, de sobrevivência. Em alguns casos é um “tal vazio”, um problema, uma questão, um impasse, necessidade ou desafio que impulsionam a mudança. Lembrei-me, pela presença da falta, do jogo “Resta um”. Se o tabuleiro tiver todas as suas casas ocupadas a brincadeira não acontece. Pois bem, temos então que, como lembram Yasui e Lima que a ideia de território vai do político para o cultural e das fronteiras entre os povos aos limites do corpo e ao afeto entre as pessoas.
Entramos, portanto, no campo do outro território: o território subjetivo. Com isso, podemos resgatar a brincadeira do resta um e, por consequência, tangenciar o substantivo solidão. Ocorreu-me, a princípio, dizer que cotidianamente escuto dos pacientes — no consultório privado e no público em que trabalho — queixas relacionadas à ideia e ao ideal de autossuficiência, rompimento e fragilidade dos vínculos familiares, dificuldades de socialização e isolamento. Esse último claramente agravado pela pandemia. Nesses termos, é possível dizer que a experiência de solidão ganhou contornos importantes nos últimos tempos. Podemos pensar na solidão também como um subproduto do modo de produção capitalista e das novas maneiras de viver que fragilizam os laços de solidariedade. Entre os diversos recortes possíveis da temática optei por certa leitura psicanalítica.
Sabemos que o tema da solidão não aparece, necessariamente, como um conceito bem formulado na obra de Freud e de Lacan. Entretanto, existem rastros que podem contornar a temática. Vejamos: precisamos mesmo responder à demanda social de autossuficiência e operar no modo “olho por olho e dente por dente”? O “cada um por si” é uma saída possível? Temos mesmo que participar daquele happy hour após o encerramento de uma jornada de trabalho que para alguns é exaustiva? A vida está perdida quando o date é desmarcado, quando a festa está chata? Acredito que não, mas isso não significa que essas e tantas outras experiências aconteçam sem sofrimento. Perdemos muito, é claro, quando alguém que amamos falece; quando um vínculo importante é rompido ou quando nos deparamos com aqueles muitos infortúnios da vida.
A solidão, entre outras possibilidades, pode ser entendida como uma manifestação do mal-estar no laço social. Vale lembrar que solidão não é o mesmo que segregação ou marginalização, ainda que essas coisas possam se encontrar. Não existe mágica, fórmula ou alívio imediato para a solidão. Isso porque a solidão pode sinalizar algo singular do sujeito (nada mais singular que a forma como cada um padece). Trata-se de um mal-estar que se relaciona à falta. Suponho que o tratamento adequado da solidão — e não falo necessariamente da psicanálise (porque embora importante ela é apenas uma das alternativas existentes) — pode fazer emergir construções e elaborações importantes. Abreviando: a solidão é fonte de sofrimento? Claro. Não há dúvidas! Entretanto, assim como acontece nos territórios, a falta pode ser fonte de movimento e fazer-se ponte. Ou melhor: laço. Não fosse certa atividade solitária talvez não tivéssemos a arte a nosso favor.
Lembrar da arte conduziu à Matilde Campilho. Num pequeno trecho ela lembra:
"Neste mundo onde hoje tudo faz barulho, a toda hora, o silencio é a maior benção possível. Hoje em dia eu acho que o silêncio muitas vezes tem que ser escolhido porque se a gente deixar são dias e dias e dias e horas sem ele. Ele não vem nem de noite. E não digo só nas cidades, digo na cabeça da gente, é tanta informação. Mas sem silencio não há trabalho, não há aquele momento em que você para para olhar de verdade. As pessoas têm medo do silencio, eu própria posso ter medo do silencio como muita gente tem medo as vezes de olhar no espelho. O espelho é o melhor dos silêncios, sou eu e eu, e agora?"
Não se trata de fazer apologia à solidão, mas dizer que ela está aí. Está posta. É algo constitutiva. Quando pensava nesta conversa e na frase de Frei Betto, sabidamente engajado na educação popular, outra ideia me aconteceu. Dizer que “a cabeça pensa onde os pés pisam” escancara a necessidade de engajamento, movimento, transformação e subversão das condições adversas de vida. Pensei na importância e na necessidade de ampliação do acesso à saúde. Por que não pensar na democratização radical da psicanálise? Ressalto, que nesse caso não se trata de incorporar o discurso que prega que “isso ou aquilo” serve à todas e todos. Trata-se, na verdade, de ofertar as condições mínimas e indispensáveis à uma vida com menos sofrimento. Numa de suas entrevistas, Criolo nos lembra que “todos tem fome. Se não é de não é de arroz e feijão, é de afeto”. Djonga, advertido da realidade brasileira, inseriu em uma de suas canções os seguintes dizeres: “arroz, feijão e carinho é o prato do povo”.
Ocorre, então, que as condições de vida e as particularidades de cada território, atravessam os modos de vida, orientam os laços sociais, produzindo mais ou menos necessidades e solidões. Cabe, então, tratar a solidão com os recursos materiais necessários à manutenção de uma vida digna (como acesso à saúde, educação, renda etc) e com boas doses de inventividade para que cada sujeito encontre a sua forma de inserção no laço social.
